Noções básicas de mecânica

Para ler ouvindo:

Recife, dezoito de julho de dois mil e vinte

Caro senhor que franziu o cenho de preocupação ao me ver – uma completa desconhecida-, com as mãos na cabeça em razão de a bateria do automóvel ter pifado no meio do caminho e decidiu oferecer ajuda fazendo uma “chupeta” no meu carro parado no cruzamento da avenida João de Barros com a rua Dom Vital em Santo Amaro em algum dia do mês de outubro de 2012, por volta das 18h,

Valter Hugo Mãe disse que somos meio mães e pais e filhos uns dos outros e a solidão é a incapacidade de reconhecer os outros como nos pertencendo. A fragilidade humana está posta, bem como a precariedade do material de que somos constituídos. Cada linha que escrevo parece uma variação da noção de que o ser humano cheira mal e é capaz das maiores atrocidades, mas, ao mesmo tempo, ainda há o que valha a pena ser visto por aqui. Estamos irremediavelmente desamparados. E a despeito disso, ou justamente por causa disso, ainda há muitas mãos que se estendem para aplicar uma chupeta no seu carro numa quinta-feira qualquer ou para fazer as compras na farmácia do casal de idosos do segundo andar enquanto há um vírus do qual pouco se sabe lá fora.


Híbrida

Escrevi o microconto acima durante um curso de escrita criativa (esse aqui ó, maravilhoso, aliás, https://www.escoladeescrita.com.br/curso/escrita-criativa-primeiro-contato-narrativas-e-procedimentos/) no qual fiz as pazes com o fato de ser uma médica interessada em literatura. Voltar para as palavras foi entender que meu interesse por elas pode coexistir com a medicina. E a literatura, que nos últimos vinte e seis anos tinha sido ó-céu-ó-chão-ó-ar-ó-vida, adquiriu o caráter de processo. De algo que está por fazer ou que está pra ser feito. Andei revisitando uns blocos, cadernos, folhas avulsas e quando vi mais casos clínicos que rascunhos de histórias, tive um clique. Nessa vida, não quero ser sem a escrita.


Trabalhas na academia ou no teatro? És pesquisadora ou escritora? (…) É esperado que sejamos leais a uma disciplina, a um gênero. Ou és músico ou és escritor. Ou és performer ou escreves livros. É tudo muito separado. E essa separação do conhecimento, essa fragmentação do conhecimento faz parte exatamente do conceito colonial e patriarcal do conhecimento, que é um conceito extremamente masculino, branco e fálico. Fálico porque é extremamente hierárquico (…) Nós vamos para a escola e depois para a universidade e só podemos estudar uma coisa. Depois fazemos uma especialização sobre essa coisa, depois fazemos um mestrado sobre essa coisa e depois um doutoramento e vamos subindo e subindo. E subimos e subimos e esse falo fica cada vez maior. É um conceito que exclui a maior parte. É extremamente colonial.

E todo o resto são hobbies, são passatempos. Eu acho que meu trabalho é híbrido, é um trabalho feminista descolonizador. Eu não quero trabalhar nessa hierarquia. Quero navegar entre várias disciplinas. É um conceito de conhecimento circular, que apanha vários saberes. Eu acho que essa desobediência é importante. Construir uma outra linguagem.

Certos conhecimentos basearam-se na patologização do corpo negro. Essas instituições que dizemos que reproduzem o conhecimento sempre tiveram uma relação extremamente problemática com a negritude, e foram espaços onde nós não entramos, onde nos foi negado o acesso. Então, no momento em que construímos o discurso e construímos o conhecimento, obviamente que esse conhecimento tem que navegar por vários formatos e desobedecer e acima de tudo tem que criar linguagens que não estavam lá antes, e que às vezes, nesse momento da confusão, quando as pessoas ficam confusas é porque algo de extraordinário está a acontecer, é porque o momento de descolonização está a acontecer. Será ficção, será psicanálise, será ciência, memória, trauma, biografia? Esse momento de confusão é necessário para criar linguagens decoloniais.”

Grada Kilomba em mesa na Flip 2019, “Mata da corda”.

Gosto de pensar na literatura e na escrita como minhas tentativas de dar conta do caos do universo. Rosa Montero diz que enxerga os livros como um exoesqueleto, nas palavras dela, “um esqueleto fora de mim que me estrutura e me permite ficar de pé.” É no processo – do texto, da narrativa, e também da escuta dos que estão sob meus cuidados -, que eu vou me fazendo.