Duas ou três palavras sobre O amor não tira férias e amores não correspondidos

A página em branco do papel, o cursor piscando na tela esperando a linha seguinte, aquela linha encarregada de inaugurar o texto, ou de dar forma e sentido à história, podem ser intimidadores. Escrever é encarar o vazio de frente e insistir, topar com o dedo mindinho na quina de alguma palavra meio truncada, mergulhar o pé no gelo para aliviar o desconforto e seguir para a palavra seguinte. Imagino que com intensidade semelhante se lapida uma pedra disforme. Tais atividades – lapidar, escrever e porque não?, viver- exigem olhar para o que ainda não é.

Seres humanos são especialistas em construir com minúcia e desvelo os motivos de seus sofrimentos e de permanecer ali, não só atados a eles, mas, em certo sentido, reféns deles. Aqui não trato do inegável impacto da desigualdade social no poder de escolha dos indivíduos, que atua achatando e limitando suas possibilidades. Viver, especialmente viver no Brasil em 2020, é lidar com desesperança, descrença nas instituições, medo, desamparo, injustiça. Há tanta imprevisibilidade que soa estranho e até deslocado da realidade falar em escolher. Tantos pontos escapam que por vezes parece que tudo escapa e está fora de controle ou não obedece a uma lógica na qual as escolhas têm uma razão de ser.

Pacientemente, grãozinho de areia por grãozinho de areia, se monta o percurso em que um se torna coadjuvante da própria dor. De repente, do nada, sem que haja conexão com minha história e muito menos com minhas escolhas, pluft estou profundamente descontente, insatisfeito, solitário, insira aqui seu sentimento. Desde já peço desculpas e entendo se você quiser parar de ler por aqui, eu também estou tendo comichões e sofrendo de pruridos, afinal, citar Freud num texto sobre uma comédia romântica despretensiosa, é cruzar uma fronteira de plausibilidade, mas ó, irresistível questionar: Qual sua parcela de responsabilidade na desordem da qual você se queixa, hein, Iris?

Iris Simpkins (Kate Winslet) é uma escritora apaixonada pelo chefe, um homem indisponível e que apesar de alimentar seus sentimentos, está noivo de outra mulher. Jasper é insolente e desde a primeira interação entre eles em O amor não tira férias (The holiday, 2006), fica bastante claro o pouco caso que faz dela como pessoa. Não há informações sobre a vida pregressa de Iris, então o que se sabe é o recorte mostrado no filme: ela trabalha escrevendo uma coluna sobre casamentos em um jornal de Londres e está há pelo menos três anos em uma história unilateral com seu chefe.

Há também outro tipo de amor. O tipo mais cruel. Aquele que quase mata suas vítimas. Chama-se amor não correspondido e nesse, sou especialista. […] Amei profundamente esse homem por três desesperados anos. Os piores anos da minha vida. Piores aniversários e piores natais. Passagem de ano à base de lágrimas e Valium.

Iris, em O amor não tira férias

A rejeição é difícil de lidar por provocar uma ferida que em grande medida tem origem na vulnerabilidade de se colocar como objeto de amor do outro e não passar a ocupar o posto de escolhido dentre todos. É um lembrete cruel e rasteiro – e não há quem pise a Terra que não o reconheça -, de que o outro pode se desfazer de nós. No entanto, afastando as camadas de melancolia e olhando através da superfície do luto, dá pra enxergar as múltiplas motivações de se manter preso a uma relação unilateral. Buscar frustrações ou repetições de experiências de abandono. Buscar a comodidade de não estar profundamente conectado a alguém, com todas as implicações envolvidas em se relacionar. Buscar certo conforto que a tristeza pode trazer. Buscar distração para não entrar em contato com questões internas.

Quanto cultivar amor por alguém indisponível não revela da indisponibilidade do próprio sujeito?

Já ouviu a palavra de Rosa Montero hoje?

No livro “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, Rosa Montero apresenta a história da cientista Marie Curie através do seu diário de luto escrito quando perdeu o marido, Pierre Curie. Antes de conhecer Pierre e de se tornar a descobridora do rádio e do polônio, Marie foi preceptora e se apaixonou pelo filho mais velho da família para a qual ministrava aulas. Prontamente, foi descartada por não ter sido considerada a herdeira nora apropriada. Rosa Montero escreve:

“O desamor é chavão, ridículo, monumentalmente exagerado. Mas dói, e como dói! Parece mentira que o fim de uma ilusão amorosa que talvez tenha durado apenas algumas semanas possa lhe afundar em semelhante inferno. Em 1888, enquanto suportava a amargura de continuar trabalhando na casa de quem a rejeitara como nora, Marie escreveu esta carta a uma amiga: Caí numa profunda melancolia […]. Eu mal tinha dezoito anos quando cheguei aqui, e não há o que eu não tenha sofrido! Passei momentos que estarão entre os mais cruéis de minha vida! E isso quem diz é uma garota que viveu a morte da mãe e da irmã mais velha antes de completar onze anos! Mas a ferida sentimental lhe parecia mais insuportável, mais atroz. Sim, penas amorosas abrem abismos surpreendentes, espasmos de agonia que na verdade eu acho que se referem a outra coisa, vão além da história amorosa em si, estão ligadas a algo muito básico da nossa construção emocional, à pedra fundamental em que está assentado o edifício que somos.”

“A ridícula ideia de nunca mais te ver”, Rosa Montero, páginas 59 e 60.

Nas discussões sobre amor e desamor, não acredito ser possível prescindir de um olhar para as dimensões de gênero que essas questões evocam, uma vez que os homens aprendem a amar muitas coisas, e as mulheres aprendem a amar aos homens. Esse vídeo aqui elabora essas questões bem mais do que os meus três neurônios que estão funcionando no momento seriam capazes:


“Nos filmes, nós temos as protagonistas e as melhores amigas. Você, eu posso dizer, é uma protagonista, mas, por algum motivo, está se comportando como a melhor amiga.” // “Você tem razão. Pelo amor de Deus, temos que ser a atriz principal da nossa vida.”

É tudo meio rápido, milagroso e quase indolor, como é pra ser num bom Filme de Natal. A mudança de ambiente, o sol de L.A. e as novas conexões criadas operam mudanças em como Iris se enxerga e em como quer se relacionar. Iris deixa escapar nas frestas que ela estava se colocando como assujeitada e é lindo acompanhar sua busca por autonomia, e por aprender a marcar no chão até onde os outros podem pisar. O vazio assusta e convoca. No papel e na vida.


O naipe de paus está ligado diretamente à energia do fogo e basta pensar no significado desse elemento para a humanidade — nós não vivemos sem ele. É um naipe impulsionador, dinâmico e que fala da nossa criatividade. O que te sustenta? O que te estimula?” Relações unilaterais podem servir de mapa para ajudar a decifrar e ajustar desejos profundos, esses quietinhos esperando a primeira oportunidade para emergir. Onde todos os buracos estão preenchidos, não há espaço para criar. No papel e na vida.